História
Reinos de Runeterra: Um bom dia

Além de informações sobre geografia, economia e cultura, o livro Reinos de Runeterra contém histórias inéditas deste universo. Veja uma amostra do conto de Freljord.

HistóriaAutorAnacronista
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Entre as muitas histórias que povoam o mundo de Runeterra, algumas se destacam. Escolhemos algumas dessas para apresentar a vocês um pouco do que pode ser encontrado no livro.

Abaixo, leia o início de um conto sobre a sobrevivência nas terras gélidas de Freljord e como o que parece trivial para alguns é quase impossível para outros. 

Um bom dia

Anthony Reynolds

Vrynna trincou os dentes para conter o bater de queixo e se forçou a seguir em frente, caminhando pela neve grossa. O vento era inclemente, gelo e neve fustigavam o rosto, mas ela não se encolheu. Não demonstraria fraqueza diante dos demais.

Seu clã era parte da Garra do Inverno e suportaria qualquer provação do norte congelado.

Às costas deles, no leste, o céu escuro começava a clarear; aproximavam-se do meio-dia. No auge do inverno, o sol mal despontaria no horizonte antes de se pôr outra vez. Mais ao norte, o sol sequer nasceria.

Eram cinco na caçada. Os três primos estavam com Vrynna — Halgar, Treme-ossos e Rylor —, espalhados mais para a direita, enquanto a quinta pessoa, a batedora, seguia mais à frente, fora de vista.

“Não tem nada aqui”, murmurou Halgar, o mais próximo. “Que perda de tempo. Vamos todos morrer de fome. A tribo devia ter rumado para o sul meses atrás.”

Vrynna revirou os olhos. Mesmo se estivesse se refestelando em um banquete regado a comida e hidromel, Halgar arrumaria motivo para reclamar.

“Segure a língua, primo”, rosnou Treme-ossos, “ou eu mesmo arranco ela fora.”

Halgar fez cara feia, mas não disse mais nada diante do olhar severo de Treme-ossos — o líder da caçada não fazia ameaças vazias e era conhecido pela paciência curta.

Vrynna pediu aos deuses para que Halgar estivesse errado, mas sentia, bem no fundo, que seria mais um dia difícil. Já fazia mais de um mês desde a última boa caçada, e as reservas de carne salgada — que deveriam durar o inverno inteiro — tinham acabado havia semanas. Houvera um breve momento de alívio depois de emboscarem um destacamento de Corvos da Tormenta, longe do lugar onde costumavam caçar, mas a comida do inimigo não durara muito. A tribo estava faminta.

Seguiram em silêncio; o único som que se ouvia eram os passos amassando a neve. Vrynna usava a lança como cajado, enterrando-a na neve para ajudar na caminhada. Levava o arco a tiracolo e as flechas na cintura. Não que tivesse tido a chance de usá-las. Estavam a quatro horas de distância do acampamento e não houvera qualquer sinal de caça.

A barriga roncou — fazia dias desde que comera algo mais substancial que uma sopa rala de ossos —, mas fez um esforço para ignorar. O vento estava ficando mais forte, e ela se enrolou ainda mais na capa com forro de peles. Acima, as nuvens ficavam mais espessas, obscurecendo as estrelas e deixando o dia cada vez mais escuro, ainda que a aurora do meio-dia fosse iminente.

O desespero foi se apossando dela com suas garras sutis e insidiosas. A mente fervilhava de dúvidas sussurrantes.

Vamos todos morrer aqui fora, congelados e sozinhos.

Vrynna balançou a cabeça, espantando-as.

Diante dela, a neve era crivada de formações rochosas ásperas, feito gigantescos dedos gangrenosos. Estavam longe demais para haver árvores ou qualquer outro sinal de vida. Para onde quer que olhasse, a desolação congelada se estendia a perder de vista.

De quando em vez, mais ao norte, via-se o clarão de um relâmpago. O grupo avançava pela tundra congelada, mas o tempo parecia se arrastar. Minutos duravam horas. Toda a existência de Vrynna se reduzia apenas a continuar caminhando, um pé após o outro, seus sentidos embotados pela fome e exaustão.

Perdida no torpor, Vrynna levou meio segundo para reagir quando, de repente, uma figura surgiu na escuridão bem diante dela.

Sobressaltou-se e deu um passo atrás, aprontando a lança com pressa, antes de perceber que era Sigrun Corre-Gelo, a batedora.

Corre-Gelo estivera aguardando, imóvel, em meio a um amontoado de pedras, bem coberta pela capa malhada de cores claras. Só se tornou visível quando entrou no caminho de Vrynna, uns dez passos à frente.

Os cabelos de Corre-Gelo, grisalhos havia tempos, estavam presos em tranças justas. O rosto tinha sinais de idade, e os olhos traziam rugas nos cantos de tanto franzir diante do clarão da neve. Embora fosse uma das pessoas mais velhas da tribo, talvez até mesmo de toda a Garra do Inverno, ainda conservava uma poderosa vitalidade, e poucos eram capazes de suportar seu olhar intimidador. Até mesmo os jurados de sangue da mãe de guerra estremeciam diante de seu escrutínio. Alta, com uma magreza lupina, ela cravou em Vrynna seu olhar de aço.

“Tá sonâmbula, incólume?”, disse Corre-Gelo. “Se eu fosse um inimigo, você estaria morta.”

Vrynna xingou baixinho e olhou para o chão, ruborizando. Os olhos de Corre-Gelo ainda faziam com que ela se lembrasse da invasão. Depois de todo esse tempo. Halgar, Treme-ossos e Rylor se juntaram a elas, e só de ver o sorriso debochado de Halgar ela já sabia que ele tinha escutado a provocação de Corre-Gelo.

“Se assustou que nem uma coelhinha da neve, incólume”, falou ele. “Mijou nas calças, foi?”

“Halgar, você também não me viu”, cortou Corre-Gelo, encarando-o. “Mas dela eu esperava mais.”

Por trás da barba congelada, viu-se o sorriso de Halgar. “Ninguém nunca te vê, Corre-Gelo.”

“Achou alguma coisa?”, perguntou Treme-ossos.

Corre-Gelo ficou encarando Halgar até fazê-lo desviar o olhar, o sorriso morrendo no rosto barbado, e então voltou-se para o líder da caçada.

“Rastros, meia légua adiante”, informou ela. “Logo depois do aclive, rumo ao noroeste.”

“Elnuk?” O rosto coberto de tatuagens com padrões de nós estava sério, como sempre. Vrynna tinha suas dúvidas se ele era capaz de sorrir.

Corre-Gelo balançou a cabeça, uma sugestão de empolgação em sua voz. “Trovodonte. E dos grandes.”

Vrynna arregalou os olhos e Rylor murmurou, satisfeito. Nem mesmo Halgar teve algo negativo a dizer.

“Qual a distância?”, perguntou Treme-ossos.

“Os rastros estão bem frescos”, respondeu Corre-Gelo. “Eu diria que passou por aqui há poucas horas.”

De repente, Vrynna se esqueceu da exaustão. Um trovodonte, mesmo que jovem, já bastaria para alimentar o clã inteiro por um mês, ou mais. Ficou com água na boca só de pensar.

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